miércoles, 13 de mayo de 2009

Democracia corinthiana: a utopia em jogo

No início dos anos 80, o Corinthians deu início a uma experiência única na história do futebol. O presidente da época decidiu instaurar, juntamente com os jogadores, o voto democrático para as decisões importantes relacionadas à gestão da equipe.

Por Bruno Ribeiro

“Por tradição, o futebol brasileiro é um meio retrógrado e paternalista. Apegados ao poder, os dirigentes dos clubes e federações procuram alienar os jogadores e tratá-los como escravos. (...) Em um país como o Brasil, dificilmente o jogador é tratado como profissional e cidadão, com liberdade e responsabilidade.

Com base nessa constatação, transformava-se numa questão de tempo o surgimento de uma mobilização capaz de abalar a estrutura do futebol e dos clubes, um movimento de jogadores dispostos a assumir responsabilidade em troca de um tratamento profissional adequado.

Porém, um movimento como esse não teria sucesso nem repercussão num clube distante dos principais centros futebolísticos do país. Isso reduz os candidatos a sede de tal iniciativa a São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Se esse é o primeiro ingrediente da receita para mudar as relações profissionais, fiquemos com São Paulo, maior cidade e principal centro financeiro do Brasil. De preferência, a mobilização deveria ocorrer em algum clube popular da cidade escolhida, o que reduz ainda mais o rol de candidatos. Optemos então pelo Corínthians, um dos mais vitoriosos e populares times do Brasil.

Mas resta ainda um último ingrediente: é preciso aproveitar o momento ideal para desencadear a revolução. No início da década de 1980, o Brasil passava por um período de abertura política após quase duas décadas de ditadura. Na mesma época, os principais jogadores do Corínthians estavam insatisfeitos com as condições de trabalho no clube e tiveram a oportunidade de mudar o que acreditavam estar errado. Poucos momentos de nossa história pareciam tão adequados para romper com a estrutura conservadora e arcaica de nosso futebol”.

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira não era nome de jogador de futebol. Nem tipo físico ele tinha: era alto, desengonçado, magro demais para um esporte tão viril. Além do quê era boêmio, mulherengo, bebia, fumava e freqüentava todas as rodas de samba de São Paulo. Não lia o caderno de esporte dos jornais; preferia o de política. Era estudante de Medicina, filiado ao PT (que acabara de ser fundado) e não gostava de treinos e concentrações. Talvez por isso, deu um toque filosófico ao nosso futebol, como diz a canção de Zé Miguel Wisnick, feita em sua homenagem. Para compensar a falta de preparo físico, só tocava a bola de primeira. Assim, chegou à Seleção Brasileira, como capitão do time. Teve participações brilhantes em duas Copas do Mundo, 1982 e 1986. Tinha uma visão de jogo acima da média, dificilmente errava um passe. Um dia, jogando contra um time da Polícia Militar, cobrou um pênalti com o calcanhar. E fez o gol. Era um gênio.

Sua maior contribuição para a história do futebol brasileiro, porém, não diz respeito apenas ao que ele fez dentro de campo, mas também ao que incitou fora dele. Como se o destino lhe reservasse um futuro que fizesse jus ao nome, Sócrates tornou-se o maior pensador do futebol brasileiro, ao liderar o movimento conhecido como Democracia Corintiana, que mudaria para sempre a história do clube paulistano e própria história de vida de cada um dos jogadores envolvidos.

Se o leitor tem menos de 25 anos, talvez tenha apenas uma vaga lembrança do que representou aquele movimento. Fizeram-no uma geração de craques que não se limitou apenas a jogar bola, mas que pensou o futebol além das quatro linhas do gramado. Com “Doutor” Sócrates (um meia-direita boêmio), Wladimir (um lateral-esquerdo comunista) e Casagrande (um centroavante que gostava de rock, maconha e teatro), o futebol extrapolou os limites esportivos e assumiu aspectos políticos, sociais e culturais.

Para os que não lembram (ou preferem não lembrar), a Democracia Corintiana foi a aplicação, no futebol, de uma espécie de autogestão, que resultou nos títulos paulistas de 1982 e 1983 para o Corinthians. Depois de forte pressão política exercida pelos atletas – que culminou na queda do presidente Vicente Matheus, folclórico “ditador” corintiano –, jogadores, comissão técnica e diretoria passaram a decidir, no voto, tudo o que fosse de interesse para o clube: contratações, demissões, escalação da equipe, data e local de concentração e outras coisas que, antes, cabiam somente aos cartolas. Tudo era resolvido no voto. E os votos tinham o mesmo peso: do goleiro reserva ao presidente do clube. Era mais ou menos como se os operários de uma multinacional começassem a opinar e a decidir sobre os rumos da empresa.

Para o sociólogo Emir Sader, a Democracia Corintiana foi o prelúdio de uma experiência democrática que até hoje o Brasil nunca exerceu plenamente: “Essa experiência aconteceu surpreendentemente e prematuramente no Corínthians, o time de futebol mais popular do Brasil. Quando ninguém no país podia votar, os jogadores daquele grupo conquistaram o direito de decidir sobre seus rumos”.

Nessa época, o Corínthians é o primeiro clube brasileiro a usar a camisa do time com fins publicitários. O publicitário Washington Olivetto, criador do termo “Democracia Corintiana”, deu a dica e, ao invés de logotipos de empresas, o time passou a entrar em campo estampando frases de cunho político nas costas: “Democracia Já”, “Quero votar para Presidente” e outras palavras de ordem causaram constrangimento e preocupação na cúpula militar que governava o país. No auge do movimento, o brigadeiro Jerônimo Bastos, presidente do Conselho Nacional de Desportos (CND), chamou o presidente do clube e avisou: “Vocês não podem mais usar esse espaço para fins políticos; caso continuem, vamos engrossar o caldo, vamos intervir no clube”.

Vinte anos depois, a Democracia Corintiana é tema de tese de doutorado e ganha seu primeiro registro literário: Democracia Corintiana – A Utopia em Jogo (Editora Boitempo, 184 pág, R$ 26). Escrito a quatro mãos, pelo jornalista Ricardo Gozzi e por Sócrates, o livro recupera as memórias do Corínthians democrático e analisa o contexto histórico do movimento. Leia-se o início do livro para entender a importância daquele momento: "Uma série de golpes de Estado patrocinados pelo governo norte-americano na segunda metade do século 20 transformou a América Latina num celeiro de ditadores sanguinários (...). Em 1982, o Brasil vivia seu 18º ano sob regime militar. Mas já era possível sentir um clima de abertura política no ar."

É justamente nesse clima de abertura que Sócrates, Casagrande, Wladimir e outros menos lembrados, como Zenon, Biro-Biro (rotulado, injustamente, como reacionário e contrário ao movimento) e Luís Fernando, além do diretor de futebol Adilson Monteiro Alves (que era sociólogo) radicalizam dentro do Corínthians, num levante que ganhou adesão popular e chegou a promover o lateral-direito Zé Maria à técnico do time, em 1983. Diante deste fato, inédito no esporte mundial, o Jornal da Tarde estampou a manchete: “Os jogadores chegam ao poder”, reconhecendo a autoridade da Democracia.

Mas, no começo, a convivência entre jogadores e imprensa não foi das melhores, como lembra Sócrates em uma passagem do livro: “Durante a Democracia Corintiana, existiu um processo ideológico por parte dos veículos de comunicação mais conservadores a fim de caracterizar ou rotular nosso movimento como um sistema frágil perante a opinião pública. Alguns sentiam a necessidade de fazer isso, até porque a Democracia Corintiana passou a ter um peso na história do país, no processo de democratização pelo qual passava o Brasil”.

A Democracia começa a morrer quando Sócrates deixa o Corínthians para jogar na Fiorentina, na Itália. Sua ida, porém, não atende à interesses financeiros ou pessoais. Um mês antes de a emenda das eleições diretas para presidente ser votada na Câmara, o jogador corintiano, no palanque dos artistas, intelectuais e políticos que pediam “Diretas Já”, declara publicamente que, se a emenda não fosse aprovada pelo Congresso Nacional, ele deixaria o Brasil.

Em 1984, a emenda é reprovada, o brasileiro continua proibido de eleger seus principal mandatário, e Sócrates deixa o Brasil, cumprindo a promessa. Sem sua maior liderança, a Democracia fica enfraquecida. Mesmo com os esforços dos companheiros incumbidos de levar adiante o sonho da Democracia, a utopia corintiana chega ao fim. A venda do rebelde Casagrande para o rival São Paulo representa o segundo grande baque para o movimento e a sua derrocada.

E, infelizmente para o Corínthians e para o futebol, Roberto Pasqua, ligado à Vicente Matheus, derrota Adilson Monteiro Alves no pleito de 1º de abril de 1985 por uma diferença ínfima de votos, assumindo a direção de futebol do clube sob denúncias de fraude e compra de votos. A derrota eleitoral da Democracia enfurece os torcedores, que precisaram ser contidos pela Polícia Militar na porta do ginásio de apuração. A nova diretoria precisa ser escoltada para sair do estádio. O terreno estava preparado para a volta de Vicente Matheus, o “eterno” presidente do Corinthians.

O livro de Gozzi e Sócrates faz uma revelação surpreendente: durante a Democracia, todas as dívidas do clube foram pagas e ainda foram deixados US$ 3 milhões em caixa. Dois anos depois, já sob a diretoria conservadora, o Corínthians estava financeiramente quebrado e sem os seus principais craques, vendidos para quitar dívidas. Antes que 1985 chegasse ao fim, o Corinthians voltava a ser um time como todos os outros.

Porém, aos que acham que a experiência fracassou, os atletas que dela participaram mandam seus recados. Em jornais da época, é possível encontrar entrevistas significativas com jogadores cujas personalidades foram profundamente influenciadas pela Democracia. Pequenas frases, recolhidas em depoimentos de Sócrates, Wladimir, Casagrande, Biro-Biro, Juninho e outros, denotam a grande contribuição histórica do movimento:

“Costumo dizer que a minha vida divide-se em duas fases: antes e depois da Democracia Corintiana” – Wladimir

“Se não fosse a Democracia Corintiana, eu teria tomado muita porrada na vida. Não sei dizer o que teria sido a minha carreira e a minha vida sem a Democracia. Eu poderia ter virado um drogado, um bandido” – Casagrande

“Muitos de nós engajaram-se no exercício da cidadania, filiaram-se a partidos políticos e trabalharam ativamente em causas sociais” – Luís Fernando

“Éramos unidos. Íamos juntos ao cinema, ao teatro e depois sentávamos para tomar um chope e conversar sobre o que tínhamos acabado de assistir” – Sócrates

“A verdade é que, em tudo o que é feito com consciência e dedicação, você obtém realização pessoal. Não era apenas por dinheiro. Jogávamos com enorme prazer, sobretudo porque sabíamos que estávamos contribuindo, de alguma forma, para a redemocratização do país” – Wladimir

“Todos nós viramos ídolos de políticos, artistas e intelectuais; recebíamos cartas de apoio vindas do mundo inteiro e isso fez com que começássemos a nos cobrar mais leitura sobre a realidade social e política do país; líamos muito, líamos até nos intervalos dos treinos” – Casagrande

“A Democracia me fez aprender a respeitar a diferença, mas jamais aceitar a desigualdade” – Biro-Biro

“Depois de ter passado pela Democracia Corintiana, nunca mais tive medo de falar a verdade, de defender o que acredito, sem me preocupar em agradar a quem quer que seja” – Juninho

No último capítulo do livro, Sócrates, finaliza, ressaltando as conquistas irreversíveis da Democracia:

“Conseguimos provar ao público que qualquer sociedade pode e deve ser igualitária. Que podemos abrir mão dos nosso poderes e privilégios em prol do bem comum. Que devemos estimular a que todos se reconheçam e que possam participar ativamente dos desígnios de suas vidas. Que a opressão não é imbatível. Que a união é fundamental para ultrapassar obstáculos indigestos. Que uma comunidade só frutifica se respeitar a vontade da maioria de seus integrantes. Que é possivel se dar as mãos”.

Publicado originalmente el 15 de noviembre de 2005