miércoles, 12 de diciembre de 2012

Futebol sem ditadura: Corinthians e Al Ahly já lutaram contra regimes


Democracia Corintiana e Primavera Árabe são marcos na história das equipes que decidem uma vaga na final do Mundial. Clubes cooperaram contra tempos difíceis de Brasil e Egito

Lancenet

O futebol pode, de alguma forma, ajudar a derrubar governos autoritários? Corinthians e Al Ahly, semifinalistas do Mundial de Clubes, que vão duelar nesta quarta-feira, às 8h30, no Toyota Stadium, com transmissão em tempo real do LANCE!Net, provam por suas histórias que a bola faz, sim, ecoar o grito de liberdade.

Enquanto os atuais representantes da "República" alvinegra ainda engatinhavam, Sócrates, Wladimir, Casagrande & Cia. protagonizavam a "Democracia Corinthiana", movimento ideológico que dava aos jogadores poder de decisão para questões antes tratadas só por dirigentes, com autogestão e direito a voto. O ano era 1982 e o Brasil atravessava um período de transição do Regime Militar para a democracia, alcançada em 1985. Presentes em movimentos populares, como o “Diretas Já”, os jogadores tinham posicionamento politizado e influenciavam o povo.

Já no Egito, terra que vivia há 30 anos sob o regime do presidente Mohammed Hosni Mubarak, as arquibancadas tiveram papel fundamental para a queda do ditador.

Acostumadas a combates com a polícia, as torcidas organizadas – entre elas as do Al Ahly – estiveram na linha de frente da "Primavera Árabe", movimento de jovens aderido por países do Oriente Médio.
Em 25 de janeiro de 2011, foi organizada “a grande revolta,” dia em que milhares de pessoas foram às ruas para reivindicar seus direitos. O exército reagiu e o massacre terminou com 42 mortos e milhares de feridos. Até que Mubarak renunciou, em 11 de fevereiro.

Já em 1 de fevereiro deste ano, como retaliação ao envolvimento dos jovens torcedores na revolução, o massacre no estádio de Porto Said culminou em mais derramamento de sangue. Hoje, o país vive transição eleitoral. O campeonato local segue parado, mas pode ser retomado.

Ricardo Gozzi, jornalista e autor do livro “Democracia Corintiana”

A Democracia deu um rosto à aspiração maior

Era época de um regime fechado, mas abriu-se um espaço dentro do clube para que os jogadores tomassem decisões. Não foi uma rebelião, mas uma abertura. Vice-presidente de futebol, Adílson Monteiro Alves fazia o vínculo do grupo com a presidência. Enxergou-se que aquilo era positivo, não só pelo fato de os atletas quererem ter voz, mas porque aquela liberdade melhorava o desempenho deles. Estavam mais contentes. Não ganharam tudo, até ganhou pouco, mas o Paulistão (1982 e 1983) tinha um peso maior.

A própria torcida corintiana, que tem consciência social maior, aceitou mesmo porque os resultados apareceram em campo.

O movimento ganhou protagonismo, pois o Brasil vivia um momento de abertura política e ele deu um rosto, uma face pública a uma aspiração maior. O esporte mais popular do país, o time mais popular de São Paulo, de maior torcida... Tem um peso! Tanto que a CBF chamou o presidente Waldemar Piris para explicar porque colocava “Diretas Já” na camisa, para tentar contê-los. O movimento se aproveitou da fase política do país, mas ao mesmo tempo deu a ela a chance de um debate maior. Não era direcionada à esquerda ou à direita, havia divergências.

Arlene Clemesha, Professora de história árabe da Universidade de São Paulo (USP)

No Egito, as torcidas romperam barreiras

As torcidas organizadas tiveram um papel muito importante na revolução. Por se tratarem de jovens sem perspectivas no país, se encaixaram e foram decisivos para a derrubada de Mubarak durante os 18 dias de revolução, que começou em 25 de janeiro de 2011. Uma passagem que virou marco foi quando, após uns três ou quatro dias de ocupação na Praça Tahrir, houve uma batalha sobre a ponte que dá acesso a ela, onde o Exército mandou tanques para cima da população. Ali, tiveram papel importante, pois usaram as técnicas que tinham para combater a polícia durante os jogos para ter um nível de organização capaz de, através de avanços e recuos sucessivos, conter a barreira policial, que foi muito violenta. Romperam a barreira do medo, nada mais segurava aquelas pessoas.

Esses torcedores constituem uma camada social que briga por um futuro melhor, muitas vezes até com formação universitária, mas sem trabalho. O massacre no estádio foi considerado por todos como uma retaliação. Aconteceu na cidade mais combativa, com presença de operários que aderiram à revolução. E os portões foram fechados, houve indícios de que foi tudo orquestrado. Talvez não achavam que os efeitos seriam tão grandes.

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